Domingo, 6 horas da tarde. Tédio.
Ela pega o celular, clica no ícone verde do aplicativo de mensagens. Procura na lista de contatos, selecionando aquela janela que há pouco tempo atrás estaria no topo de suas conversas, e nunca mais sinalizou uma nova mensagem.
18h03, mesmo dia, mesmo tédio, outro canto da cidade. Ele acaba de responder em um grupo sobre um trabalho a ser apresentado dali há alguns dias. Abre a aba de contatos e lê o nome dela. Abre a janela, e abaixo do nome lê "online". Pensa em digitar um oi, pensa em como iniciar uma conversa, pensa em dizer que sente a falta dela, mas apenas pensa, quando de repente vê o "online" ser substituído por "escrevendo..."
18h04. Jogada de qualquer jeito no sofá da sala, ouvindo nos fones a música que sempre a fizera lembrar-se dele, digita com uma mão, enquanto a outra leva o cigarro à boca: "sinto tanto a sua falta, bem que você podia me chamar...". Dá um sorriso pro "online" abaixo do nome dele, e continua "...sei que você está aí, me chama, vai!". Seu polegar corre a tela até o botão de envio, mas sem hesitar, apaga as palavras escritas, e suspira olhando pro teto.
18h10. Ele vê o "escrevendo..." abaixo do nome dela, voltar ao "online" anterior. Dá um meio sorriso, esperando a mensagem, que não chega. Abre a foto dela, (in)felizmente não clica "sem querer" no botão de chamada de voz do canto superior, e observa que ela não sorri na foto preta e branca do perfil, assim como não sorria nas últimas três fotos dela que ele vira ali nas últimas semanas. O cabelo está mais curto, a maquiagem pesada, e a frase do status é a mesma que ela agora carrega tatuada no peito. Enquanto ele repara na foto, o "online" dela desaparece. Ele bloqueia a tela e volta sua atenção ao jogo do seu time na TV do quarto.
18h02. Ela troca a faixa da música, ouvindo o conselho sábio de mother Mary, let it be, let it be, let it be. Abre a foto dos dois sorrindo na piscina, e lembra de como era gostoso vê-lo sorrir daquele jeito depois de ouvi-la dizendo uma gracinha qualquer. Lembra de como gostava da sobrancelha dele, e do quanto as unhas sempre roídas dele eram bonitinhas. Não sabe porque ainda não apagou a foto, mas sabe que era o que deveria fazer e seguir em frente. Volta ao aplicativo de mensagens e vê que ele não está mais online. Responde que não pro convite das amigas do grupo pra uma cerveja, porque precisa estudar, mas ao invés disso, abre o editor de textos e começa mais uma carta que nunca será lida por ele.
18h25. O telefone dele notifica uma mensagem recebida, e ele checa desejando que fosse ela. Não é, e ele sequer responde. Joga o telefone de lado, e tenta se concentrar no jogo, mas não consegue. Pensa na última conversa que tiveram cara a cara, se lembra e sente muito pelos olhos vermelhos dela depois de ouvir o que ele tinha pra dizer. Se levanta pra buscar uma cerveja na geladeira, e ouve o celular notificar novamente, mas não se preocupa em checar. Dificilmente seria ela. Volta com a cerveja, coloca o telefone no silencioso, sem sequer olhar pra nova mensagem.
18h27. Ela para de escrever a carta na metade e decide falar com ele, tentar pela última vez. Digita um oi, envia, e aguarda uma resposta ansiosamente, pra enfim poder falar sobre o que sente.
18h31. Ele sai para comprar cigarros, deixando o telefone jogado em cima da cama. No caminho, encontra um amigo que o convida pra tomar algumas cervejas num bar do Centro da cidade. Ele resolve ir, mesmo odiando sair aos domingos.
20h55. Ela já tomou banho, derramou duas lágrimas, e resolveu encontrar as amigas num bar do Centro da cidade. Antes de sair, apaga o número dele da agenda do celular, depois de bloqueá-lo no aplicativo. Ela não se arriscaria mais a procurá-lo de novo, a ser ignorada de novo.
21h. Ele se despede do amigo, que o deixara em casa. Entra no quarto, e pega o celular, em meio ás mensagens dos grupos, um "oi" deixado por ela algumas horas atrás. Ele responde animado "Oi! Tudo bem?"
O celular dela não notifica.
No dele, nenhum risquinho confirma a mensagem recebida.
Ele balança a cabeça.
Ela, engole de uma vez, o copo cheio de cerveja, mas o que amarga mesmo é a saudade que sente.
Ele desiste de esperar a resposta dela e vai tentar dormir.
FIM (?)