sexta-feira, 27 de março de 2015

O poder

ser ou não ser? eis a questão
dizer sim para o mundo
em busca da plenitude
ou regredir e dizer não
a grande dádiva da vida
é também origem das angustias
o direito e o dever da escolha
cair no mundo, ou viver numa bolha
há quem mergulhe de cabeça
o ingênuo opta pela omissão
sem saber que a não escolha
é no fundo uma decisão

domingo, 22 de março de 2015

Cidadezinha qualquer

sexta feira da paixão, dia cinza
em uma cidadezinha qualquer
aventuro-me pelas ladeiras históricas 
lembranças do tempo de criança
atravessar o centro de bicicleta
pedalar pela Exposição, Canal da Praia e João Pinheiro
ao subir o Moinho Velho busco forças
no aroma do almoço preparado pelas Donas Marias.
subo a ladeira devagar
o fusca também sobe devagar
devagar a chuva cai.
o cachorro se escondeu no viaduto
o burro, há muito não o vejo pelas ruas
as janelas leem a nostalgia em poesia
eita vida boa meu Deus!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Eu desfocado

sou poço sem fundo
buraco negro no centro do mundo
sou caminho sem fim
torno-me pessoa distante de mim
sou a personificação da Falta
a Falta que me falta
sou ausência, necessidade
fonte, gênese da saudade
sou vazio, sou ausente
minha presença me enlouquece
minha ausência me deixa doente

sábado, 14 de março de 2015

Leveza

um cigarro de palha
uma praça tranquila
moça bonita boa de prosa
leve e espontânea
o invejoso trouxe a chuva
a moça trouxe a sombrinha
ficou ate mais agradável
sentir a pele dela junto a minha

terça-feira, 10 de março de 2015

Criado mudo

criado
mudo
estático
ao mesmo tempo
móvel
sem voz
apático.
mudar
é um processo
catártico
tornar ativo
um ser/objeto
estático.

sexta-feira, 6 de março de 2015

existo, sinto, penso

não penso para provar a existência
existo porque estou no mundo
dê me paciência
pensamento não é a prova da existência

não penso para vir existir
simplesmente existo
e também penso
e também desisto

penso 
e agrego valor a minha existência
existo
e sei que um dia irei deixar de existir

Mas enquanto isso eu existo
e também penso
e não menos importante
eu também sinto

Sentir
tão fundamental
quase tão importante 
quanto existir.

pensar, sentir, existir
me cabe o devir


segunda-feira, 2 de março de 2015

Sobre a arte de perder

A arte de perder é o maior de todos os mistérios
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las 
E tudo isso me parece muito sério

Perco um pouquinho a cada dia
Como aceitar as chaves perdidas e as horas que gastei?
A arte de perder é o maior de todos os mistérios

Então fui perdendo mais rápido e ainda com menos critério:
Se foram os lugares, os nomes e a escala 
Da viagem que eu quis fazer. Isso é muito sério

Dei adeus ao relógio da mamãe
Ah! Não consigo esquecer de três vidas excelentes
A arte de perder é o maior de todos os mistérios

Porque eu já perdi uma boa dúzia de cidades lindas
O sonho do império, os rios e os cinco continentes
Tenho saudade de querê-los. E isso é muito sério

– Mas perder você (sua voz e o riso que tanto amo) foi o que mais mudou em mim
Pois é evidente que a arte de perder é o maior de todos os mistérios, por mais infinito que seja
(continuo) muito sério


(Livre adaptação do poema “One art”, de Elizabeth Bishop - http://www.poets.org/poetsorg/poem/one-art)

domingo, 1 de março de 2015

Reza

meu santinho protetor!
preencha meu vazio
preencha, pode ser de fumaça
e se não tiver cigarros
serve a cachaça
caso também não tenha
envia-me uma moça cheia de graça
também não deixe faltar
bons amigos em um banco de praça
não posso ficar vazio meu santinho!
pois já dizia o velho ditado
cabeça vazia é oficina do tinhoso
vulgo diabo