terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Receitinha de felicidade: Ela nunca fez


Sentou e quis ficar descalça. Os pés já estavam cansados demais do sapato apertado. Ela só queria sentir a brisa que batia leve entre as folhas e os dedos. O dia veio acompanhado daquela pergunta outra vez. Era a cobrança pela felicidade batendo na porta da vida de novo.

A questão é que sempre chega um dia em que todo mundo espera que algo mágico já tenha acontecido. Todos perguntam sobre o grande amor da vida, os filhos e o lindo diploma que deveria estar pendurado na parede. Ela nunca entendeu como estes poderiam ser os ingredientes secretos da fórmula da felicidade.

A moça sempre achou que dava para viver bem assim, só com os pés no chão e nada mais. Mas o martelo da felicidade insistia em bater naquele prego sem cabeça. Eram as perguntas da família, o chá-de-bebê da amiga em que o assunto principal eram as crianças e o vestido de noiva na capa da revista no consultório do dentista. Tudo era só mais um jeito chato de dizer que faltava alguma coisa. Mas ela não sentia falta de nada.

As bonecas da infância eram plástico de brincar. “Sei lá, a Barbie nunca precisou do Ken para continuar a sorrir”, pensava. As panelinhas eram um recado que saber cozinhar é importante para não morrer de fome, atolada na conta do restaurante ou com o freezer cheio de congelados. Para ela, nada disso era um treino para a dona de casa feliz que deveria estar escondida no seu inconsciente infantil.

A chegada da vida adulta exigiu um diploma. Este era o primeiro passo para realizar o plano infalível de ser feliz. Os pais queriam uma advogada, mas ela achou que história era suficiente para fazer dela alguém melhor. O diploma não foi parar na parede.

Nunca se sentiu infeliz no pequeno apartamento que tinha. A luz da lua que batia na cama já era suficiente para fazê-la sorrir. Por que precisaria de mais? Não precisava. Não entendia a pena que todos sentiam ao olhar para ela, que no alto da sua maturidade sabia viver bem com sua própria companhia. Não sentia triste pela falta daquilo que nunca quis.


Tentou pensar na pergunta que a deixara cansada, mas a noite ia chegando, tinha combinado uma cerveja com a melhor amiga. Antes de levantar, quis sentir um pouco mais da grama, afundou os dedos para aproveitar melhor e então calçou os sapatos. Já ia embora quando pegou uma folha, sentiu o perfume e sussurrou: “Ah, não tem receita. Esse é o cheiro da felicidade”.

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