Me vi ali, parada e olhando o seu
jeito de longe. Nunca lhe contei, mas sua jaqueta de couro e o cabelo cuidadosamente
alinhado de um jeito bagunçado já me deram a certeza de que não poderia haver
outro, apenas você. Sei muito bem que não me viu e não poderia ter visto, mesmo
que fosse a mim mesma que seus olhos procurassem. Naquele imenso minuto, eu já
havia aprendido que eu morreria e renasceria apenas com o seu sorriso.
Eu nunca disse que meus olhos brilhavam
ao lhe ver ou que minha pele se arrepiava com a vibração da sua voz ou ainda
que o meu coração perdia o compasso apenas por imaginar a sua presença. Eu não
falei que fingia não ver quando você chegava. Não sei o porquê, mas não falei
sobre o quanto amava o calor da sua pele. Acho que deveria ter sussurrado que
os meus cabelos imploravam pelas suas mãos e que o contorno da minha cintura
desejava o seu toque. Mas eu nunca disse...
Ainda não descobri o motivo de
não lhe contar o quanto o seu “bom dia” enchia de luz a minha rotina. Será que
eu deveria ter falado que as 24 horas que se seguiam até a próxima mensagem me
consumiam? Seria só mais uma dentre todas as verdades! Mas dizer isso também
seria admitir que nada em mim substituía a alegria de ver que eu, e mais
ninguém, tinha feito parte de você por mais uma manhã.
Nunca disse o quanto amava nossas
conversas na janela e o som dos carros na avenida. Nunca disse que o jeito como
os seus olhos mudavam de cor apenas com o brilho do sol já me aquecia. Nunca falei que passaria
a vida assistindo aos seus solos de guitarra invisível feitos ao som de alguma
banda de rock clássico que o seu pai lhe ensinou a gostar desde criancinha.
Queria muito ter dito que a eternidade cabia no seu abraço e na sua respiração
quando você acordava. Talvez, um dia eu possa mostrar com minhas palavras e
gestos que o seu sabor me movimenta.
Não ter dito nenhuma destas palavras
me devora pelas horas contadas naquele relógio que não existe, mas que insiste
em afirmar que não posso falar mais nada. Foi esse tal tempo invisível que me
massacrou diante da espera longa, das horas e dias sem fim... Nunca disse o
quanto ainda desejo que o momento chegue, que me invada e que seja luz, para
que eu também possa lhe inundar por completo com tudo que ainda sinto. Nunca
disse que ainda quero que não passe da hora, que não se canse, que o tal
relógio pare e que eu possa voltar para dizer tudo o que eu nunca disse.
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